terça-feira, 26 de junho de 2012

Memórias De Um Senhor Gentil


Zuenir Ventura é um dos jornalistas mais conceituados do Brasil; passou pelos principais veículos de imprensa do país; escreveu livros que revelaram temas nunca antes tratados de forma tão bem explicada (vide Cidade Partida, que mostra o início das organizações criminosas do Rio de Janeiro e as conseqüências da omissão do poder público no quesito segurança); e, nas horas vagas (e nas ocupadas também) é um homem gentil, com sua fala mansa e seu jeito sempre didático de falar.

Alguém assim tem uma porção de histórias guardadas em sua memória. Mas, guardadas, elas não servem para muita coisa – quando ganham a rua e as páginas de algum livro, trazem prazer e conhecimento. É o que acontece com Minhas Histórias dos Outros, reunião de depoimentos de Ventura sobre fatos curiosos de sua carreira.

Sempre elegante, o jornalista narra com habilidade seus causos: seu início na profissão – assim como o colega Millor Fernandes, entrou na imprensa por acaso, que seu talento soube aproveitar; casos delicados, como o suicídio do poeta Pedro Nava, em que dá uma aula de como um repórter deve se comportar; a “terrível” vingança a que submeteu um adversário, algo difícil de imaginar em se tratando de alguém tão pacato quanto Ventura; o caso em que o gravador lhe deu um olé.

O livro fecha com a história comovente de Genésio, testemunha do assassinato de Chico Mendes, um dos maiores combatentes da destruição da natureza e do crescimento da agricultura predatória no Norte do Brasil. Ventura o conheceu quando foi ao Acre cobrir a investigação e o julgamento do caso – reportagem que gerou o livro Crime e Castigo, da coleção de Jornalismo Literário da Companhia das Letras. Ameaçado de morte, Genésio teve de sair do Acre. Como não havia ninguém para ajudá-lo, Ventura resolveu tirar o rapaz daquele ninho de cobra. As aventuras que viveu fora de sua terra e seu relacionamento com o jornalista, cheio de idas e vindas, são emocionantes.

Além da costumeira competência de Ventura de escrever histórias, vale pela curiosidade de espiar um pouco a produção jornalística nas suas internas. E, claro, conhecer um dos profissionais mais competentes do Brasil.



Título: Minhas Histórias dos Outros
Autor: Zuenir Ventura
Editora: Planeta
Páginas: 270
Preço médio: R$ 44,90

terça-feira, 19 de junho de 2012

E Como Eles Fazem, Hein?!


É a pergunta que todo interessado em literatura um dia deve ter feito. Como acontece a magia de vir a história maravilhosa, os personagens bem criados, as situações empolgantes, as frases que mexem com o nosso ser? Como Escrevo?, coletânea de depoimentos organizada pelo bibliotecário José Domingos de Brito, responde em boa parte essas curiosidades.

O livro traz relatos curtos de 103 escritores, tirados das mais diversas fontes, seguidos de uma breve biografia para situar o leitor. Estão na coletânea Anthony Burgess (que escreveu Laranja Mecânica, inspirador do filme), Clarice Lispector (que fez do seu “como escrevo” uma bela prosa lírica), Dalton Trevisan, Graciliano Ramos (e seu trabalho de “lavadeira de Alagoas”), Carlos Heitor Cony, Philip Roth, Moacir Scliar, entre outros. Textos introdutórios do próprio Scliar, de Ignácio de Loyola Brandão e do organizador dão um toque especial e despertam a curiosidade.

Como de se esperar, alguns relatos até são próximos, mas nunca iguais. Tem escritor que anota ideias, tem quem não anote; o que acredita ser desagradável começar um livro; tem o que pensa a palavra como algo que “não foi feito para enfeitar, brilhar como outro falso; a palavra foi feita para dizer”; o que não faz rascunhos e não revisa; o que escreve à mão e depois datilografa – e nem chega perto do computador; o que já escreveu dois livros num navio; e por aí vai.

E, como de se esperar, o livro não tem a pretensão de ser um “guia para escrever” ou “práticas para se imitar”, e nem o leitor deve encará-lo assim. São pitadas, temperos, curiodisses que deixam a leitura ainda mais saborosa. É metalinguagem ajudando a abrir portas na literatura.

 
Título: Como Escrevo?
Autor: José Domingos de Brito (org.)
Editora: Novera
Páginas: 232
Preço médio: R$ 39

terça-feira, 12 de junho de 2012

Ela Fez Tudo Pra Gente Gostar Dela...


O assassinato do rei de Portugal fez com que Maria do Carmo Miranda, aos 9 meses, viesse parar naquela terra longínqua chamada Brasil. Cresceu – pouco, já que chegou a 1,55 m. – e se tornou um dos maiores fenômenos artísticos do país.

O casamento com um picareta americano fez com que Carmen Miranda – que, naquele momento, já estava mais do que consagrada – tivesse dias de agonia e tristeza, agravados pelo excessivo uso de medicamentos e bebida alcoólica.

O período entre esses dois fatos você já pode ter ouvido falar - sucessos musicais como “Tahi” (aquela do “eu fiz tudo pra você gostar de mim”), os famosos turbantes e o jeito todo especial de Carmen encantar o público, no palco, em discos ou nas telonas.

Tá, mas... e o que mais? Boa parte desse “mais” pode ser encontrado no livro Carmen: Uma Biografia, do jornalista Ruy Castro (note o “uma” do título, que evita prepotências do tipo “a biografia definitiva”). Temperadas pelo humor e pela apuração detalhada de Castro (leia e descubra como uma das irmãs de Carmen ficou vesga aos 8 anos), as histórias da “brasileira mais famosa do século XX” são contadas de forma leve, fluente e interessante. E os contextos históricos, como a situação política e econômica de cada época, ajudam a situar o leitor.

Lançado em 2005 – e ganhador dos prêmios Jabuti de melhor biografia e melhor livro de não-ficção daquele ano – este é um livro referência para qualquer pessoa que queira estudar música, história e cultura. A obra não se propõe apenas a ser um “juntado de informações” - é coesa, única, com todas as nuances que um romance não ficcional deve ser.

Além dos acontecimentos da Pequena Notável, lendo este livro você saberá um pouco sobre como a indústria da música lidava com seus “produtos”, as diferenças entre o Rio de hoje e dos anos 30, 40 e 50, e a “máquina de moer gente” que Hollywood era (é?). Pegue para ler, para ontem.


 
Título: Carmen: Uma Biografia
Autor: Ruy Castro
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 632 (leia as anotações finais, há informações importantes nelas)
Preço médio: R$ 67
 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Rock De Agência


Entre 23 de setembro e 2 de outubro de 2011, roqueiros de diversos gostos, visuais e lugares tomaram a Cidade do Rock, no Rio da Janeiro, para acompanhar o Rock in Rio daquele ano, num evento que movimentou milhares de pessoas (700 mil assistiram aos 7 dias de shows, de acordo com a organização) e milhões de reais (R$ 100 milhões em investimento). Entre outras bandas, tocaram Metallica, Capital Inicial, Slipknot, Katy Perry, Elton John e Coldplay. Além do atrativo de juntar uma série de estrelas da música nacional e internacional, o festival voltou a acontecer em terras brasileiras após 10 anos em Lisboa e Madrid – e, a organização já prometeu, ano que vem tem mais.

Mas... como começou tudo isso? Muita gente sabe que o início foi lá nos idos de 1985, com uma idéia maluca do publicitário Roberto Medina de organizar um festival com várias bandas e uma estrutura gigantesca – loucura para uma época economicamente psicodélica, num país em que shows internacionais costumavam terminar com roubo de equipamentos e calote de cachês. Porém, pouco se falou até hoje sobre os caminhos que levaram Queen, AC/DC, Ozzy Osbourne, Scorpions e outros grupos consagrados do rock a dar uns acordes por aqui. É o que Cid Castro faz em
Metendo O Pé Na Lama.

Cid escreveu
Metendo... com um olhar de dentro da organização. Publicitário, trabalhava na Artplan (agência de publicidade de Medina, organizadora do Rock in Rio 1) quando o festival dos “11 dias de paz e música” aconteceu. Participou ativamente de todo processo – é dele o famoso logo (um mundo azul-claro com um continente-guitarra em forma da América do Sul), o que não o impediu de ralar nos bastidores e na produção geral.

No livro, Cid vai costurando os caminhos do antes, do durante e do depois do festival que ajudou a profissionalizar o showbizz brasileiro: a descrença inicial, as dificuldades em atrair patrocínios e bandas, a produção em si, os chiliques e as frescuras dos artistas e algumas excentricidades - por exemplo, o original aquecimento que os músicos do Scorpions faziam, correndo do camarim até o palco, exatamente como recomendava o personal trainner
deles, numa típica demonstração de disciplina alemã.

Aspectos da vida pessoal do autor também são abordados. Hoje trabalhando como publicitário free lancer
na Europa, Cid conta o começo de carreira e os perrengues pelos quais passou, como quando morou num “apertamento” na companhia de uma gata que mais rosnava que miava; sua chegada a uma grande agência; e todas as dores e delícias que cercavam a Artplan naquela época. Também fala do prazer que foi trabalhar com rock, seu estilo musical preferido na adolescência.

Embora os palavrões escancarados possam gerar uma certa estranheza – de certo o autor tenha pretendido levar um pouco do ambiente solto do rock e das agências de publicidade – o livro vale para se conferir como começou um dos maiores empreendimentos da indústria do entretenimento feitos até hoje. Importante considerar que não se trata de uma reportagem sobre o festival – o livro foi escrito baseado nas memórias de Cid, o que não diminui o aspecto curioso da obra. Bom registro de um dos capítulos mais importantes do rock brasilis.

 
Título: Metendo O Pé Na Lama
Autor: Cid Castro
Editora: Tinta Negra
Páginas: 264
Preço médio: R$ 39,90

terça-feira, 29 de maio de 2012

Mais Texto! Mais História! Mais Tudo!!!


Vale Tudo – O Som a a Fúria de Tim Maia, biografia do cantor com mais fama de reclamão da história, saiu em 2006, mas é daquela classe de livros cuja qualidade e importância pode ser reconhecida para todo o sempre. Nelson Motta, grande conhecedor de música e amigo do cara, conseguiu colocar no papel os vários meandros da vida do “gordinho mais simpático do Brasil”, com direito aos “palavrões” a que Tim teve direito e a histórias saborosas que o próprio Tim, glutão confesso, devoraria com prazer.

Tim, com o tempo, ganhou uma imagem caricata a respeito de sua personalidade – quem não conhece a história em que Tim sempre atrasava em shows, isso quando ia? Mas a biografia mostra que há muito a se saber. Nele, está a relação musical de Tim com dois outros monstros da arte: Roberto e Erasmo Carlos; as aventuras dele em terras americanas – e a sua não muito simpática volta à terra natal; sua relação com o Universo em Desencanto, que se transformaria em desencanto em breve; suas brigas por qualidade de som numa época em que a produção brasileira ainda apanhava um bocado; seu envolvimento em enrascadas, algumas das quais só entrando por ter fama de encrenqueiro.

Sem paternalizar nem proteger, Motta conta um Tim pouco conhecido por quem não conviveu com ele. Que era louco, intenso, colecionador de manias, isso ele cultivava com gosto. Só que Tim não se resumia a confusão. Seu talento musical, seu ouvido sensível e treinado, seu interesse em pescar novidades... Tudo isso movimentou a música brasileira, e gerou grandes frutos colhidos até hoje.

Os frutos de Tim, inclusive, impediram que o livro fosse editado antes. Ideia antiga de Motta, a biografia esperou a definição, na Justiça, de quem era o dono do espólio do cantor, disputado por parentes e credores do cantor. Somente após a decisão – Carmelo, único filho de sangue de Tim, ganhou a parada – é que a biografia pode ser lançada. E Sebastião Rodrigues Maia veio à tona...

Pequenos problemas na revisão não impedem que a leitura do livro seja divertida. Motta usa adequadamente o humor para falar de um cara que, até na fase Racional, não perdia a piada. Sem contar que o livro traz boa parte da história musical brasileira recente. Se Tim estivesse vivo, após ler o livro, gritaria: “MAIS TEXTO! MAIS HISTÓRIA! MAIS TUDO!!!”.

P.S.: recentemente, foram lançadas uma caixa com todos os álbuns de Tim e uma coleção comprada em bancas de jornais. Se conseguir, compre, para ontem.


Título: Vale Tudo – O Som E A Fúria De Tim Maia
Autor: Nelson Motta
Editora: Objetiva
Páginas: 392
Preço médio: R$ 56,90

domingo, 27 de maio de 2012

Happy Hour Geração Y


Nada de ovos coloridos: a vida nos botecos agora tem sabor especial

Dia 22 de fevereiro de 2011. Internazionale de Milão e Bayern de Munique jogam a partida de ida das oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa. O jogo tem vários temperos: é uma repetição da final passada, em que a Inter bateu o time alemão por 2 a 0; são dois timaços – Eto'o, Milito, Sneider e Júlio César de um lado, Robben, Gomez e Schweinsteiger do outro; e é o confronto de dois dos times mais importantes do mundo.

Um belo programa para se ver em casa. Mas, que tal assistir à partida num boteco? “No trabalho seria uma correria e em casa não tem muita graça. Aproveitei o tempo livre para ver o jogo aqui”, diz o consultor econômico Alfredo Bastia Junior, que assistiu à partida acompanhado de uma porção de bolinho de bacalhau. “É muito mais legal ver aqui. Só o bolinho já é suficiente para dar um gosto especial ao futebol”.

Esse “aqui” de que Alfredo fala é o Boteco São Bento, no bairro do Itaim. Inaugurado em 2007, faz sucesso desde o início. Com três ambientes, um deles ao ar livre, é enfeitado ao centro com duas árvores. Como todo boteco, é aberto, sem portarias ou entradas. “Dificilmente você encontra um dia sem bom movimento”, diz Christian Palmute, da área de marketing do boteco.

O lugar é frequentado basicamente por jovens querendo azarar, famílias curtindo um dia de folga, pessoas que precisam relaxar depois de um dia estafante de trabalho. E, claro, gente que gosta de futebol. “Os dias de jogos aqui são bem movimentados. A galera torce como se estivesse na arquibancada, especialmente em dia de jogo com time paulista”, garante Samuel Oliveira, o ocupado gerente de operações do lugar.

O São Bento é um exemplo da nova geração de botecos há alguns anos presente nas grandes cidades. Sem o rigor comportamental do restaurante e sem a zoeira do bar, os botecos vêm ganhando a simpatia dos que gostam de curtir um happy hour.

Não tem música alta repetitiva nem luzes piscando irritantemente, assim a conversa flui mais fácil. Alguns têm sinuca e musiquinha ambiente, o que torna o ambiente mais agradável. De vez em quando rola um jogo na tv... Ah, cara, nem se compara”. É o que diz Rafael Montenegro, assistente administrativo, quando perguntado por que o boteco é o melhor lugar para se divertir. “Toda sexta-feira estou lá. Só não vou se estiver muito ocupado ou doente de cama”.

Já Rodolfo Pazanelli destaca os comes e bebes: “A bebida nos botecos é mais barata, e a comida costuma ser maravilhosa”. Outra característica dos novos botecos: o ovo colorido na estufa e a salsicha nadando no molho deram lugar a pratos elaborados, cuidadosamente preparados para fazer valer a pena uma esticadinha antes da volta para casa.

O São Bento, por exemplo, oferece cerca de 50 pratos, desde as tradicionais porções até refeições completas. A Costela do Pecado, um dos mais pedidos, vem com a costela assada lentamente, em papel alumínio, temperada com sal e condimentos, junto com mandioca frita e salsinha jogada por cima. Um estrondo. Assada assim, a gordura combina com a carne e não dá a sensação de que se está comendo carne com sebo.

Claro, num bom boteco não pode faltar o bolinho de bacalhau, feito com batata do tipo Asterix (aquela de casca rosada, mais seca do que as tradicionais), azeite, bacalhau dessalgado e desfiado, alho, pimenta do reino e salsinha a gosto. Um picadinho também cai bem: 1 kg de alcatra ou coxão mole em cubinho de 3 cm, cebola, alho, tomate, folhas de louro, pimenta-do-reino, salsinha e cebolinha – além do pãozinho que, no fim, será traçado com o molho que sobra.

Também não se pode esquecer das bebidas. A caipirinha de uva itália, roxa, terrivelmente atraente, com cachaça, pedaços de lichia e picolé de uva. A Bronzeado: vermelha, leva framboesa, abacaxi, lichia e picolé de lichia. E a de manga, que leva a fruta, picolé da fruta e um ingrediente curioso: pimenta dedo de moça. Ainda assim, é refrescante.

Em alguns lugares, as guloseimas são complementadas com música ao vivo. É o caso do Dona Flor, em Moema. Todo dia, bandas de diferentes estilos musicais – pop, rock, MPB, samba – se revezam para levar aos clientes, além de gostos, ambientes diversos. Num dia você vai e come bolinho de bacalhau ouvindo músicas de Caetano Veloso. No outro, manda ver um picadinho ao som de Capital Inicial.

Há quem substitua baladas por noites inteiras no boteco. “Numa boite a chance de encarar um bêbado vomitando no seu pé é grande. No boteco, isso raramente acontece”, comenta o publicitário Leandro Nunes. No máximo, você pode ficar chateado com o erro de um jogador brasileiro – foi o que aconteceu no jogo da Liga, quando, aos 45 do segundo tempo, o goleiro da Inter Júlio César rebateu uma bola no pé do atacante Mário Gomez. O Bayern venceu por 1 a 0. Mas ainda tem o segundo jogo. Vai ser com bolinho de bacalhau de novo?


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Uma Metrópole Gastronômica


Ponto de parada obrigatório para turistas do mundo inteiro, o Mercado Municipal de São Paulo é um dos mais tradicionais redutos da boa culinária
 
Você está andando pelas ruas estreitas e organizadas do Mercado Municipal de São Paulo. De repente, se depara com um cesto de rambutãs. Essa fruta malaia, prima da lichia, com formato de uma mamona gigante vermelha, por dentro parecida com uma uva sem casca de caroço grande, é bem diferente do que se encontra em feiras livres por aí. Mas basta pedir a Alfredo Barreto, dono da banca Casa Gonzales, para experimentar. Seu sabor, entre o doce e o amargo, acaba com qualquer estranheza.

A banca, especializada em frutas exóticas, também vende mangostão – também da Malásia, doce médio, tem uma casca grossa (mas não dura) e tem por dentro a forma de uma cabeça de alho; a pitaia, do deserto do Atacama, no Chile – vermelha ou amarela, parece embrulhada em papel camurça; e um morango americano gigantesco e vermelho como sangue.

Na barraca da frente, a Banca do Juca (que ganhou fama na novela “A Próxima Vítima”, de Sílvio de Abreu) o simpático e galanteador Leonardo vai lhe mostrar a melancia branca. Igualzinha à tradicional, é um pouco menos aguada e, como já diz o nome, albina por dentro. Ao vê-la, não perca a oportunidade de levar: é cultivada apenas em poucas épocas do ano. E que tal levar uma fruta pão? Cozida por dez minutos, fica uma delícia com manteiga, tal como o pão francês da padaria da esquina.

Caso queira incrementar ainda mais a comida, é indispensável uma parada no G. Frederico para comprar um dos mais de 300 tipos de temperos encontrados lá. Tem casca de limão e de laranja em saquinhos, secas e em floquinhos – podem ser usadas tanto em pratos doces quanto em salgados. Há ainda o forte lemon & pepper, que deve ser usado com moderação.

Esse é só um couvert das possibilidades do Mercado Municipal de São Paulo, que, desde 25 de janeiro de 1933, enche as mesas e as barrigas de paulistanos e turistas. Obra do escritório de Francisco Ramos de Azevedo, também responsável pelo Teatro Municipal de São Paulo, a construção encanta desde a entrada. Vizinho do córrego Tamanduateí, da rua 25 de março e do terminal de ônibus Parque Dom Pedro II, o prédio bege de estilo neoclássico ocupa 12.600 metros quadrados. Atualmente, 350 toneladas de alimentos são movimentadas nos 290 boxes do Mercadão, nome pelo qual também é conhecido.

Os números portentosos superam períodos de dificuldades. O Mercadão, inclusive, já esteve a perigo. Após pequenas reformas na década de 60, chegou aos anos 70 sem dar conta da já imensa população de São Paulo. Em 1973, com a criação do Ceasa e o início do processo de degradação daquela região do centro da cidade, cogitou-se até a demolição do prédio. Felizmente, a ideia não seguiu adiante e o mercado ficou de pé. Depois de uma grande reforma em 2004, o Mercado Municipal se modernizou, inclusive ganhando um mezanino com bares e lanchonetes. E hoje, mais do que vender comida, o endereço virou importante ponto turístico da maior metrópole do Brasil.


“Vim do Rio de Janeiro a passeio e vou ficar o dia todo. Quero conhecer cada pedaço do Mercadão”, diz a dona de casa Gisélia Nascimento. Ela aproveitou para levar a irmã, a assistente social Izabel Nascimento, que, apesar de morar em São Paulo, nunca havia visitado o lugar. “Sempre vi em reportagens e fotos, mas nunca pensei que fosse tão bonito, por dentro e por fora”. Além de ver, as irmãs, obviamente, querem sentir. “Claro, queremos provar o pastel de bacalhau e o sanduíche de mortadela”.

O sanduichão tem 250 g de mortadela, 50 g de queijo prato e 20 g de tomate seco, tudo dentro de um pão fresquinho e crocante. À primeira vista, assusta pela quantidade de mortadela, que estufa as duas metades do pão. Mas é tão bonito, com o queijo derretido passeando entre as várias fatias, que logo o susto passa. O cheiro complementa a vontade de qualquer pessoa em devorar o lanche. E, na primeira mordida, percebem-se todos os ingredientes em harmonia, sem o gosto enjoativo de excesso de mortadela que o susto inicial pode passar.

“Cada detalhe é bem cuidado, assim o lanche fica tão especial. A mortadela e o queijo são cortados na hora de fazer o sanduichão e usamos gordura vegetal a 180 graus em vez do óleo convencional”, diz Jaciel Pereira, gerente de produção do Hocca Bar, que inventou o lanche que desde 1952 encanta os paladares dos visitantes do Mercadão. Ah, e nada de congelar a mortadela – as peças ficam fora da geladeira, até porque não dá nem tempo de fazer estoque.

Pereira não se arriscou a chutar quantos sanduíches de mortadela são feitos por dia nas três lanchonetes do Hocca Bar no Mercadão. “Tudo o que sei é que, em dias de movimento médio, usamos 30 peças de sete quilos. Em dias de movimento forte, chegamos a usar 50 peças”. Fazendo os cálculos, podemos chegar à impressionante marca de 1.400 lanches e 350 quilos de mortadela, num dia de boa frequência.

O não menos conhecido pastel de bacalhau é feito com o mesmo zelo. A receita leva grande quantidade de carne desfiada do peixe, salsinha, cebola e azeite, produtos que, juntos, bem preparados, acabam com qualquer dieta. “Tudo tem que ter gosto. A gordura vegetal ajuda a massa a ficar sequinha, então nada atrapalha o sabor dos condimentos”, explica Pereira. Ele revela sem problemas o seu toque especial: o azeite. “Cada item do lanche e do pastel é bem cuidado, mas é o azeite que dá a liga”.
 
Pereira só se esquece de falar do que talvez seja o maior trunfo do lugar: ele próprio. Jaciel tem paixão pelo que faz. Organiza um exército de cozinheiros, controla a qualidade dos produtos e atende jornalistas e curiosos em geral. E é capaz de deixar qualquer um com fome só com as explicações que dá sobre as comidas que o Hocca vende e as formas de preparo. Como um mágico que tira coelhos da cartola, ele tira sabores das palavras.

“Eu falo para todo mundo aqui: você tem de cercar o cliente com os cinco sentidos. Não basta ele sentir o cheiro e o sabor. O visual é importantíssimo, é o primeiro contato que ele tem com a comida”. Isso só não funciona para ele. Jaciel não come nada do que serve fora do horário de expediente. O prato preferido dele? Peixe assado e arroz com legumes. Sanduíche e pastel, só quando precisa fazer controle de qualidade do Hocca.
O Mercado da Cantareira, seu outro nome oficial, virou uma metrópole gastronômica dentro de São Paulo. Como acontece com qualquer grande cidade, chama a atenção com a intensidade da força gravitacional. “Não fico uma semana sem ir lá. Mesmo se eu não tiver nada para comprar, vou só para passear”, diz Maria Sampaio, dona de casa que compra 90% dos produtos consumidos em seu lar no Mercadão. “Virou quase um hábito. E vale a pena. Toda vez que vou lá, descubro algo”.

Mas, afinal de contas, o que torna o Mercadão uma verdadeira instituição? É o prédio encantador? São funcionários como Alfredo e Leonardo, que atendem qualquer pessoa com amizade de infância? São os produtos que parecem surgir ali e em nenhum outro lugar no mundo? Jaciel e sua saborosa descrição? As comidas destruidoras de regime? Possivelmente são todos esses elementos juntos. Assim como no sanduichão e no pastel de bacalhau, a soma dos elementos faz o todo ser especial.

Especial e intocável. Em 2010, depois de anos de discussão sobre o que fazer, a Prefeitura de São Paulo determinou o futuro dos edifícios vizinhos do Mercadão, São Vito, o popular Treme-Treme, e Mercúrio. Bem danificados, com uma reforma que custaria uma fortuna e com planos de construção de um parque no lugar, a solução encontrada foi a demolição. Tudo certo, até que surge o problema: as implosões poderiam trincar os belos vitrais do mercado. O que fazer? Simples: nada vai danificar a aparência do Mercadão. O Treme-Treme está sendo demolido marretada por marretada. O parque que espere.

Delícias do Mercadão. Foto: www.diversalia.com.br

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Um Alquimista Dos Banquetes

Como um ex-consultor de empresas se tornou um grande nome do buffet de alta gastronomia

Vinícius tinha apenas quatro maletas para escolher. Estava com a 17. 1 + 7 = 8, seu número de sorte. Uma das maletas restantes era exatamente a 8, o seu número sem precisar fazer conta. Três malas tinham valor pequeno. A outra, tinha R$ 750 mil. Havia o negociador, que poderia livrá-lo de um mico ou tirar-lhe uma boa bolada. E havia Roberto Justus, o timoneiro, comandando danças, histórias e cifras. O negociador ofereceu R$ 99.999 em troca da maleta 17. Vinícius topou.

Quando criança, o pequeno Vini fez grandes obras: jogou tinta na caixa d'água da vizinha da casa de praia e botou fogo em um depósito de papel durante a Copa do Mundo de 1990, fatos que causaram imensa vergonha a seu pai. Na época de faculdade, fez um happy hour com amigos de sala na companhia de um belo bife à milanesa devidamente guardado no bolso da calça – feito pela mãe de um colega, estava tão bom que quis guardar para depois.

Vinícius Rojo, 34 anos, trabalha com catering, serviço de produção e entrega de alimentos, na empresa batizada com o seu sobrenome. Esqueça empadinhas, esfihas e coxinhas tradicionais. Vinícius lida com algo que hoje, e cada vez mais, deixa de ser um mero serviço para se tornar uma arte: a alta gastronomia.

A comida tem que cercar a pessoa nos cinco sentidos. Não dá mais para considerar apenas o cheiro e o gosto”, diz. E a comida não deve só dar conta dos sentidos. Os sentimentos também entram na história. “Por isso, gosto de brincar com as surpresas”. Entre as excentricidades, ele já criou pirulitos de cordeiro com chocolate, croque monsieur com chantilly de gruyére ao perfume de trufas, e um drink de boas vindas de esférico de curaçao blue com hi-fi.

Para um leigo, essas combinações podem parecer impensáveis. Mas basta a primeira mordida para qualquer um mudar de ideia rapidinho. E como acontece a alquimia de certos ingredientes, à princípio impossíveis de se juntar, combinarem num mesmo prato? “Tem coisas que o chef sabe que vão harmonizar – a experiência na cozinha ajuda nesse acerto. Mas há ingredientes que exigem alguns testes”. Como na vida, a arte de cozinhar é permeada por vivências e riscos.

Vinícius viaja muito em busca de novas experiências gastronômicas. “Até o ano passado, investi tudo que ganhei para conhecer meus chefs ídolos pessoalmente, e experimentar a comida deles”. Já visitou Inglaterra, França, Itália, Japão e Espanha. E já esteve no El Bulli – do catalão Ferrán Adrià, considerado um dos melhores chefs do mundo, onde um pedido de reserva de mesa pode demorar um ano para se confirmar. Também esteve no inglês The Fat Duck, do não menos conhecido Heston Blumenthal, protagonista da série de TV “À Procura da Perfeição”.

Embora a alta gastronomia brasileira tenha melhorado nos últimos anos, é necessário para um chef daqui buscar referências em outros países. “Nossa cozinha ainda é incipiente. Lá fora, os grandes restaurantes têm laboratórios de estudo, reservados especificamente para elaboração de novos pratos. Por isso, eles conseguem produzir comidas e desenvolver técnicas realmente especiais”, diz Vinícius. Na Rojo, como não tem sócio, ele divide o tempo que usa nas buscas por novidades gastronômicas com questões de contabilidade, marketing, controle de custos, prospecção de clientes e logística de eventos.

Nem sempre ele pensou em trabalhar com gastronomia. De família classe média, Vinícius e seus três irmãos estudaram em boas escolas. Seguindo influência do pai, bancário, se formou em administração na FAAP – ele próprio bancava as mensalidades com os estágios que começou a fazer logo no primeiro semestre. Ocupou o cargo de analista financeiro e, aos 21 anos, representou a empresa onde trabalhava em outras cidades, chegando a morar um período em Brasília.

Mas, num determinado momento, percebeu que não era aquilo o que queria fazer. “Mesmo bem encaminhado, senti que tinha de mudar o rumo da minha vida”, lembra. Pediu as contas no emprego, voltou para São Paulo (e para casa do pai) e foi caçar o que fazer.

Passou alguns meses pesquisando, até que, em 2004, fundou o Bun Café, especializado em cafés especiais. Passou a organizar o buffet de eventos, o que começou a ocorrer com certa frequência. Pegou a manha e o gosto pela coisa, fez cursos de gastronomia, até que, em 2007, depois do fechamento do café, percebendo boas oportunidades na área de catering, raspou o fundo do tacho financeiro e abriu a Rojo Criatividade Gourmet. “Fui juntando cada centavo de onde vinha dinheiro. Meu padrão de vida caiu muito, mas era isso o que eu queria fazer na vida”.

Com um bom know-how e alguns cursos na área, a Rojo foi crescendo passo a passo, mas ainda precisava de um grande pulo, principalmente em estrutura. Vinícius tinha a vontade, só faltava a grana. E foi que, de repente, Roberto Justus e suas maletas milionárias apareceram em sua vida, e ele foi chamado para participar do programa Topa Ou Não Topa, do SBT. 
 
Vinícius aceitou a proposta do negociador, e fez bem. A maleta 17, que estava com ele, tinha míseros 50 centavos, o suficiente para comprar um lápis e fazer uma cozinha... de desenho. Levou os R$ 100 mil, com os quais montou a estrutura que tanto queria. Assim, o menino que jogou tinta na caixa d'água da vizinha, o jovem que andou com um bife à milanesa no bolso e o ex-consultor de empresas que já esteve enfurnado em relatórios e estatísticas corporativas, fazia a Rojo crescer, com todos os equipamentos profissionais necessários a uma cozinha profissional.

Foi o melhor estagiário que já tive, com uma sensibilidade incrível para gostos. Poucas vezes vi alguém com tanta habilidade para lidar com a psicologia do sabor como o Vinícius”. O mestre Murakami, chef do Kinoshita, um dos restaurantes mais tradicionais de comida japonesa em São Paulo, só guarda boas lembranças do ex-estagiário, que esteve lá por cerca de um mês para pegar influências asiáticas contemporâneas. “E é uma pessoa muito especial. Talentoso e gente fina”. Vinícius também passou pelo D.O.M., do rigoroso e premiado Alex Atala.

Sempre que pode, ele passa um tempo estagiando em cozinhas de grandes chefs. “É bom conhecer outros ambientes e diferentes metodologias de trabalho”. Ano passado, quase passou um tempo com Juan Mari Arzak, cujo restaurante ganhou 3 estrelas no guia Michelan, e onde Vinícius teve o melhor jantar de sua vida - “Só perde para a comida da minha vovó Mafalda!”. Por conta da mudança de sua cozinha, teve de adiar o estágio, que será feito em julho deste ano.

Atualmente, produz delícias para festas de casamentos e importantes eventos de grandes empresas como bancos e montadoras de automóveis, e é um dos buffets credenciados no GP Brasil de Fórmula 1. “Hoje trabalho mais do que quando pertencia ao mundo corporativo, mas tenho muito mais prazer no que faço”.

Vinícius tenta preservar o melhor ambiente possível na Rojo, escapando do insalubre esquema de trabalho de uma cozinha, onde, quase sempre, trabalha-se em temperaturas altíssimas, temperadas com a pressão de sair tudo gostoso, com higiene e em perfeita harmonia. E, sim, uma cozinha funciona com a disciplina de um quartel. Mas a estupidez deve passar longe. “Sou rígido e exigente, mas faço o possível para que nada aqui seja levado para o lado pessoal”.

A preparação de um banquete funciona como num jogo de futebol: adrenalina e eficiência devem andar de mãos dadas. E, durante um jogo, não dá para pedir por favor a um lateral para avançar um pouquinho mais, tão pouco pedir ao volante que, por gentileza, ajude na marcação. “Às vezes escapa um palavrão, mas nada que parta para ignorância”.

Para amenizar o efeito do estresse, Vinícius contratou um professor de ioga que irá aliviar mentes e músculos dos funcionários da Rojo. Também procura investir no conhecimento da equipe: num evento de gastronomia à que foi assistir em Madrid, levou consigo o chef de cozinha da Rojo, Marcus Pompeu. “Esse cuidado é importante. Assim, você consegue o respeito de sua equipe, sem implantar uma política de medo e autoritarismo”. Vinícius dá o exemplo de Gordon Ramsay, do Hell's Kitchen, chef reconhecido e competente, e que costuma ter verdadeiros ataques quando algo não sai do jeito que ele quer – incluindo aí pratos quebrados e panelas voadoras.

Mas ele não entra nessa pilha. E os resultados aparecem dentro e fora do buffet. A chef carioca Andrea Rodrigues, em seu blog, fez o seguinte comentário, falando sobre o 3º Congresso Internacional de Gastronomia de São Paulo: “O almoço foi oferecido pelo chef Vinícius Rojo e seu Buffet, Rojo Criatividade Gourmet. Foi o único que fiz questão de colocar aqui porque o cara é bacana; uma pessoa tranquila passeando pelo buffet com toda simplicidade que um chef deveria ter. Não falo daquela falsa simplicidade, mas sim da verdadeira, coisa que a maioria desses que estão na mídia - não necessariamente, né? - não tem...”.

www.rojo.art.br

 Vinicius com a mão nos legumes - e ele também faz massa.
Foto: Marcos Multi

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carta De Um Corintiano

Poema escrito pelo caro colega Vinícius Bacelar em homenagem ao mais apaixonante e apaixonado time de futebol do mundo - acabamos caindo em 2007, mas nos levantamos de novo... E vai Timão!!!


Carta de um Corintiano

Por Vinícius Bacelar

Desde 1910
Nosso destino
Era evidente
Bataglia era
O sobrenome
Do primeiro presidente
Tivemos nosso
primeiro ídolo
O saudoso Neco,
Comemoramos muito
os 254 gols do Teleco.
Por ali muitos passaram,
Para a nossa vida alegrar
Servilio, Baltazar,
Luizinho Polegar
Em 1954
ano extraordinário
ganhamos em cima do Palmeiras
o quarto centenário.
Vimos o crescimento
De um nobre menino
Seu nome:
Roberto Rivelino
Que mesmo sem ter
Ganhado um título
Muitos o consideram
Como um dos
mais ilustres filhos
com belos gols,
jogadas de brilho.
Em 1976
Invadimos o Maracanã
Do Brasileirão passamos perto
Que só veio em 1990 com o Neto.
Em 1977
bem que podia ser no Pacaembú,
mas foi em um Morumbi lotado
que quebramos um tabú.
Novos tempos começaram
mas sempre com muita emoção
E com muito sabor
Acompanhamos o Timão
Vimos um Doutor
com muita alegria
Com nome de filosofo nascido
No berço da democracia.
Que no Parque São Jorge
Na década de 80 também nasceu
Bons tempos aqueles, diz alguém que
Naquela época viveu.
Mais três brasileiros, alguns paulistas
Parceiros estrangeiros.
Hoje vivemos dias de desespero
Estamos lutando para não cair
Vamos Corinthians
Não deixem mais
Te chamarem de faz me rir.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Chaparral Sex Music


Um breve panorama a respeito dos sons do nheco nheco pago

Há uma lenda que explica porque o termo “brega” é usado para rotular músicas excessivamente românticas, de fala rasgada e palavreado simples. No Rio de Janeiro dos anos 30, havia uma rua chamada Manuel da Nóbrega, dominada por casas responsáveis pelo divertimento físico masculino adulto – em português claro, bordeis. O tempo fez com que a placa na esquina da rua fosse se desgastando e, sem os cuidados da administração municipal da época – preocupada com a Rio de Janeiro de taradice mais discreta -, dela só restou um pedaço. Nesse pedaço, tudo o que se lia eram as duas últimas sílabas: BREGA. Ninguém se preocupou em arrumá-la, e o lugar ficou conhecido como tal.

De tanto os homens falarem “vamos ao brega”, “fui ao brega ontem e me diverti muito”, “vou fazer minha despedida de solteiro no brega”, o tipo de música que embalava os pegas dos casais temporários adotou o título. E não tinha vitrola nem gravador: todo brega que se prezasse tinha sua banda. Grandes nomes da música popular brasileira desvirginaram suas carreiras nessas casas – só para citar um: Pixinguinha.

Mas hoje, oito décadas depois, os bregas já não são mais os mesmos. Não ficam mais em zonas (opa!) específicas, apesar de estas ainda existirem (a Rua Augusta está aí para comprovar). Em alguns bairros da periferia de São Paulo é possível se encontrar casas do gênero, com suas luzes de neon e nomes exóticos. A música continua sendo um tempero fundamental. Só não é mais tocada por bandas ao vivo - um aparelho de som com gabinete de 3 CDs resolve a parada.

O Chaparral, em funcionamento há 18 anos, é o representante do gênero na região da avenida Aricanduva com a avenida Itaquera. Os seus concorrentes mais diretos – o Dunnas e o Sereia – fecharam há algum tempo, e o Manhattan, caçula da área, ainda não pegou no breu. Mesmo com a escassa concorrência, a casa não relaxa no trato com os clientes. Tem uísque de todo tipo – do mais fuleiro até um bom 16 anos, que custa 27 reais a dose. Assim é com as moças. Cada uma coloca o preço, dependendo de seu porte físico e da aparência do cliente. Homens com roupas de marcas custosas – isso tem também na Zona Leste, viu?! - pagam mais caro, essa é a regra. O que eles bebem é uma boa dica: o que chama o drinque de 27 reais, de certo, tem mais dinheiro do que o cliente que pede cerveja barata (o que dá uma boa dica aos murrinhas mãos de vaca).

Ah, e tem a música. Ela é tocada o tempo todo. Cinco segundos é o máximo permitido sem um som – bom, o que o camarada pode fazer enquanto está com um drinque na mão e escolhe a garota com quem vai ficar? A música também é fundamental para desinibir aqueles que, ao chegarem na casa e se verem rodeados de mulheres com vestidos curtos cheias de amor para dar (ou alugar?), ficam retraídos.

Escravos do amor

Antônio, responsável pelo bar e pela discoteca (“não coloca o sobrenome, por favor”, ele pede), diz o critério para se escolher a trilha sonora que vai tocar. “Deve ser dançante, nada de som paradão. As meninas têm que mostrar toda sensualidade. Elas têm que entrar no clima da música e atrair os caras, se não o homem não se interessa”.

No último sábado do mês é feita uma festa temática na casa. Este é o mês da Festa do Samba, “uma das que mais lotam”, afirma Antônio. Aí não tem jeito. O estilo que vai tocar é um só. Nos dias convencionais, o DJ improvisado presta atenção na empolgação que rola na pista que fica no meio do espaço de 715m2 ocupados pelo Chaparral, contando os quartos. Esse ambiente é essencial. Se o cliente não sentir o clima de sexualidade, ele não pega ninguém.

Três das meninas - Andréia, Catarina e Solange (sempre codinomes, nada de nome de batismo nessa profissão) - citam dois dos clássicos obrigatórios desse e de qualquer outro bordel: “Slave To Love”, de Brian Ferry, e “Careless Whisper”, do Wham!, banda que revelou George Michael. Catarina diz que são “batata. É só colocar que e a homarada fica acesa. Além disso, são uma delícia pra dançar”. As colegas concordam. As três já trabalharam em outros bordeis e o sucesso é o mesmo. Mas, ué, música paradona não estava proibido?! “Ah, mas um pouco de romantismo nunca faz mal...”. Ah, tá!!!

“Slave To Love” (em português, Escravo do Amor), é romântica, com um passo marcante de baixo e um fundo de teclados. O refrão nada mais é do que Brian e backing vocals repetindo o título da música 3 vezes. A letra é simples, já que o importante é transmitir a mensagem do amor: “Agora a primavera está virando seu rosto na direção do meu / Posso ouvir o seu riso / Posso ouvir o seu sorriso / Escravo do amor / Não posso escapar, sou escravo do amor”.


Antônio se lembra de uma história interessante em se tratando de música. Quando os Mamonas Assassinas morreram, em 2 de março de 1996, eles resolveram fazer uma homenagem. No fim de semana seguinte ao acidente que matou os 5 integrantes da banda, o Chaparral colocou para tocar, durante a noite inteira, todas as músicas do grupo. Foi um sucesso. Todo mundo que estava na casa cantou em voz alta todas as canções. Distraídos com as letras de humor sagaz, ninguém quis saber de sexo. Foi o dia com menor movimento nos quartos. Em compensação, nunca se bebeu tanto e nunca se pulou tanto naquele salão. E nunca mais se fez homenagem semelhante...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sobre Piadas E Topetes


Ela tem vontade de saber o que está por trás 
de um cabelo bem armado

“A mulher do português está à beira da morte e resolve confessar ao marido que o filho deles é de outro. Ele diz: 'Ora, pois, eu sempre soube'. Ela, surpresa: 'Mas como você sabia?'. O marido responde: 'Ué, Maria, quando nós estávamos na maternidade você me disse para ir trocar o menino, que estava todo cagado!'. Ele realmente trocou o bebê. Por outro”. Esta é a piada favorita de Wilma Nogueira Prats, e fica ainda mais engraçada para ela quando é Francisco Prats, seu marido, quem conta.

Casos desse tipo podem ser encontrados no livro “Wilma”, com a história de vida de... Wilma. Mas não adianta procurá-lo em livrarias, sebos e afins. A obra foi produzida por Regina Rapacci Magalhães, dona da Biografias & Profecias, editora que escreve livros sob encomenda, e não está a venda. Somente dois exemplares foram tirados – um está com Wilma; o outro, com Regina.

Com capa lilás, papel couché, 111 páginas, cheio de ilustrações e fotos, o livro mostra os melhores momentos da vida da senhora de 70 anos, descendente de dinamarqueses, que certa feita queimou o álbum de figurinhas dos filhos Douglas e Shalimar porque um tinha a figurinha especial e o outro não, fato que gerava uma guerra entre os dois.

“A produção do livro me fez saber histórias de que nunca tive conhecimento”, diz Douglas Prats, consultor de lideranças. De fala mansa e gestos discretos, Douglas conta que gostou da experiência. “Ter ouvido pela primeira vez a minha vó dizer que o nascimento da minha mãe foi o momento mais importante da vida dela foi impagável”. Dado numa reunião de família, com a presença do marido, dos filhos e dos netos, o presente não precisou de data especial para ser entregue. “Ele foi feito em reconhecimento por tudo que minha mãe fez à nossa família”.

À biografia de Wilma, seguiu-se a de José Antônio Preto, português ex-dono de padaria e ex-dono de posto de gasolina. Com o mesmo estilo do livro anterior, porém de capa preta, foi encomendado por Maurício Preto, filho de José, quando o pai completou 70 anos. “Tinha uma vontade imensa de homenageá-lo em vida, e o livro com a sua biografia foi perfeito”, diz Maurício, diretor de marketing de uma empresa de manutenção industrial.

Depois, vieram os livros sobre Mário César Araújo, ex-presidente de um grande grupo na área de telefonia – este um livro mais robusto, com 313 páginas, encomendado por sua filha Clarisse. “Eu tinha umas reportagens, umas fotos guardadas do meu pai, e queria organizar e fazer uma recordação para ele”, diz Clarisse; e Gilberto Garcia, gerente numa distribuidora de produtos para construção, encomendou um livro sobre os pais, Hélio e Mafalda, por ocasião da boda de ouro deles. “Gosto de registrar as coisas da família, achei que seria um presente inovador aos meus pais, e, ao mesmo tempo, estava resgatando a memória deles”. Todos os biografados só souberam da existência do livro no dia da entrega.

O livro de dona Wilma foi o primeiro de Regina. Tudo começou em 2006, depois de uma sequência de acontecimentos ruins. Em julho, a mãe, Maria de Lourdes Puccinelli Rapacci, morreu após sofrer de afecção dermatológica, doença cujo sintoma se dá com o surgimento de bolhas na pele que, quando explodem, deixam o lugar em carne viva. Em setembro, foi despedida do banco onde trabalhava como gestora do setor de televendas. Alegação do superior: era humana demais para trabalhar num banco. “Foi uma porrada atrás da outra. Fiquei com a alma à flor da pele”.

No mês seguinte, Regina iria se casar, mas estava perdida o suficiente para organizar a cerimônia. Foi aí que apareceu uma figura importante: a irmã mais velha, Ana Maria. “Ela acabou sendo minha mãe. Sem ela, o casamento não teria acontecido”. Em homenagem à irmã, ela escreveu um livro, baseado em diários que a mãe deixou sobre as duas.

Regina gostou, e resolveu que faria disso o seu trabalho. Começou o negócio sem nenhum tipo de estudo, ignorando a leitura de biografias e livros-reportagem – recentemente ela concluiu pós-graduação em Jornalismo Literário. “No começo eu não sabia direito que tipo de negócio era aquele, mas tive certeza de que queria fazer isso da vida”. Regina não queria ser ghost writer – tinha de ser algo que ela apurasse, sem abrir concessões, mas também evitando polêmicas e pontos desagradáveis. Por conta disso, todos os biografados ficaram satisfeitos com o resultado.

Douglas Prats foi o primeiro a receber uma proposta formal. A princípio, recusou. “Achei a proposta barata demais e mandei a Regina refazer”, lembra. Regina acatou a recomendação, mas o salto não foi tão grande: dos 3 mil reais iniciais, o livro de Wilma foi fechado por 4 mil. (Hoje, um livro custa entre 15 mil e 40 mil reais).

Uma equipe de freelancers faz o design e a revisão. A concepção, o texto, a parte de pesquisa histórica e a escolha de fotos é de Regina, junto com o cliente. O trabalho não a incomoda. Pelo contrário. Bonita, sempre arrumada e sorridente, ela se empolga ao falar do que faz.

Regina diz que não se trata de terapia biográfica nem de um “tratado de canonização”. Mas as obras da Biografias & Profecias passam longe do rigor de objetividade encontrado em biografias convencionais. “A ideia é que o livro gere movimento”, diz. Por “gerar movimento”, entende-se: quem ler qualquer um dos livros deve tirar uma lição. “E, para mim, o que importa é a riqueza dos encontros que promovo entre as pessoas e as histórias que ouço e registro. O livro é só uma consequência”, diz.

O próprio esquema de entrevistas de Regina é diferenciado. Ao invés do tradicional pergunta-e-resposta, ela usa cartões decorados com desenhos, com os temas que serão abordados. O entrevistado escolhe o assunto de que quer falar naquela hora, e a conversa se desenvolve a partir daí. “Esse é um jeito de me aproximar da pessoa, de quebrar o gelo”. Só não usou esse método no último livro que fez, sobre um figurão do ramo têxtil, o primeiro com participação direta do biografado. “Se eu fosse conversar com ele com cartõezinhos, não iria rolar”.

Até agora, Regina só escreveu sobre anônimos, e apenas por falta de oportunidade. Um famoso em especial lhe desperta curiosidade. “Adoraria saber o que tem por trás do topete do Roberto Justus. Ele é muito certinho...”, diz. Regina escreveria um livro sobre ele, se pudesse colocar tudo que encontrasse. Justus já tem um livro, “Construindo uma vida”, lançado em 2006. E, nele, está com o topete mais armado do que nunca.


Ela conta histórias por encomenda... Foto: arquivo pessoal