sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Carta De Um Corintiano

Poema escrito pelo caro colega Vinícius Bacelar em homenagem ao mais apaixonante e apaixonado time de futebol do mundo - acabamos caindo em 2007, mas nos levantamos de novo... E vai Timão!!!


Carta de um Corintiano

Por Vinícius Bacelar

Desde 1910
Nosso destino
Era evidente
Bataglia era
O sobrenome
Do primeiro presidente
Tivemos nosso
primeiro ídolo
O saudoso Neco,
Comemoramos muito
os 254 gols do Teleco.
Por ali muitos passaram,
Para a nossa vida alegrar
Servilio, Baltazar,
Luizinho Polegar
Em 1954
ano extraordinário
ganhamos em cima do Palmeiras
o quarto centenário.
Vimos o crescimento
De um nobre menino
Seu nome:
Roberto Rivelino
Que mesmo sem ter
Ganhado um título
Muitos o consideram
Como um dos
mais ilustres filhos
com belos gols,
jogadas de brilho.
Em 1976
Invadimos o Maracanã
Do Brasileirão passamos perto
Que só veio em 1990 com o Neto.
Em 1977
bem que podia ser no Pacaembú,
mas foi em um Morumbi lotado
que quebramos um tabú.
Novos tempos começaram
mas sempre com muita emoção
E com muito sabor
Acompanhamos o Timão
Vimos um Doutor
com muita alegria
Com nome de filosofo nascido
No berço da democracia.
Que no Parque São Jorge
Na década de 80 também nasceu
Bons tempos aqueles, diz alguém que
Naquela época viveu.
Mais três brasileiros, alguns paulistas
Parceiros estrangeiros.
Hoje vivemos dias de desespero
Estamos lutando para não cair
Vamos Corinthians
Não deixem mais
Te chamarem de faz me rir.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Chaparral Sex Music


Um breve panorama a respeito dos sons do nheco nheco pago

Há uma lenda que explica porque o termo “brega” é usado para rotular músicas excessivamente românticas, de fala rasgada e palavreado simples. No Rio de Janeiro dos anos 30, havia uma rua chamada Manuel da Nóbrega, dominada por casas responsáveis pelo divertimento físico masculino adulto – em português claro, bordeis. O tempo fez com que a placa na esquina da rua fosse se desgastando e, sem os cuidados da administração municipal da época – preocupada com a Rio de Janeiro de taradice mais discreta -, dela só restou um pedaço. Nesse pedaço, tudo o que se lia eram as duas últimas sílabas: BREGA. Ninguém se preocupou em arrumá-la, e o lugar ficou conhecido como tal.

De tanto os homens falarem “vamos ao brega”, “fui ao brega ontem e me diverti muito”, “vou fazer minha despedida de solteiro no brega”, o tipo de música que embalava os pegas dos casais temporários adotou o título. E não tinha vitrola nem gravador: todo brega que se prezasse tinha sua banda. Grandes nomes da música popular brasileira desvirginaram suas carreiras nessas casas – só para citar um: Pixinguinha.

Mas hoje, oito décadas depois, os bregas já não são mais os mesmos. Não ficam mais em zonas (opa!) específicas, apesar de estas ainda existirem (a Rua Augusta está aí para comprovar). Em alguns bairros da periferia de São Paulo é possível se encontrar casas do gênero, com suas luzes de neon e nomes exóticos. A música continua sendo um tempero fundamental. Só não é mais tocada por bandas ao vivo - um aparelho de som com gabinete de 3 CDs resolve a parada.

O Chaparral, em funcionamento há 18 anos, é o representante do gênero na região da avenida Aricanduva com a avenida Itaquera. Os seus concorrentes mais diretos – o Dunnas e o Sereia – fecharam há algum tempo, e o Manhattan, caçula da área, ainda não pegou no breu. Mesmo com a escassa concorrência, a casa não relaxa no trato com os clientes. Tem uísque de todo tipo – do mais fuleiro até um bom 16 anos, que custa 27 reais a dose. Assim é com as moças. Cada uma coloca o preço, dependendo de seu porte físico e da aparência do cliente. Homens com roupas de marcas custosas – isso tem também na Zona Leste, viu?! - pagam mais caro, essa é a regra. O que eles bebem é uma boa dica: o que chama o drinque de 27 reais, de certo, tem mais dinheiro do que o cliente que pede cerveja barata (o que dá uma boa dica aos murrinhas mãos de vaca).

Ah, e tem a música. Ela é tocada o tempo todo. Cinco segundos é o máximo permitido sem um som – bom, o que o camarada pode fazer enquanto está com um drinque na mão e escolhe a garota com quem vai ficar? A música também é fundamental para desinibir aqueles que, ao chegarem na casa e se verem rodeados de mulheres com vestidos curtos cheias de amor para dar (ou alugar?), ficam retraídos.

Escravos do amor

Antônio, responsável pelo bar e pela discoteca (“não coloca o sobrenome, por favor”, ele pede), diz o critério para se escolher a trilha sonora que vai tocar. “Deve ser dançante, nada de som paradão. As meninas têm que mostrar toda sensualidade. Elas têm que entrar no clima da música e atrair os caras, se não o homem não se interessa”.

No último sábado do mês é feita uma festa temática na casa. Este é o mês da Festa do Samba, “uma das que mais lotam”, afirma Antônio. Aí não tem jeito. O estilo que vai tocar é um só. Nos dias convencionais, o DJ improvisado presta atenção na empolgação que rola na pista que fica no meio do espaço de 715m2 ocupados pelo Chaparral, contando os quartos. Esse ambiente é essencial. Se o cliente não sentir o clima de sexualidade, ele não pega ninguém.

Três das meninas - Andréia, Catarina e Solange (sempre codinomes, nada de nome de batismo nessa profissão) - citam dois dos clássicos obrigatórios desse e de qualquer outro bordel: “Slave To Love”, de Brian Ferry, e “Careless Whisper”, do Wham!, banda que revelou George Michael. Catarina diz que são “batata. É só colocar que e a homarada fica acesa. Além disso, são uma delícia pra dançar”. As colegas concordam. As três já trabalharam em outros bordeis e o sucesso é o mesmo. Mas, ué, música paradona não estava proibido?! “Ah, mas um pouco de romantismo nunca faz mal...”. Ah, tá!!!

“Slave To Love” (em português, Escravo do Amor), é romântica, com um passo marcante de baixo e um fundo de teclados. O refrão nada mais é do que Brian e backing vocals repetindo o título da música 3 vezes. A letra é simples, já que o importante é transmitir a mensagem do amor: “Agora a primavera está virando seu rosto na direção do meu / Posso ouvir o seu riso / Posso ouvir o seu sorriso / Escravo do amor / Não posso escapar, sou escravo do amor”.


Antônio se lembra de uma história interessante em se tratando de música. Quando os Mamonas Assassinas morreram, em 2 de março de 1996, eles resolveram fazer uma homenagem. No fim de semana seguinte ao acidente que matou os 5 integrantes da banda, o Chaparral colocou para tocar, durante a noite inteira, todas as músicas do grupo. Foi um sucesso. Todo mundo que estava na casa cantou em voz alta todas as canções. Distraídos com as letras de humor sagaz, ninguém quis saber de sexo. Foi o dia com menor movimento nos quartos. Em compensação, nunca se bebeu tanto e nunca se pulou tanto naquele salão. E nunca mais se fez homenagem semelhante...

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Sobre Piadas E Topetes


Ela tem vontade de saber o que está por trás 
de um cabelo bem armado

“A mulher do português está à beira da morte e resolve confessar ao marido que o filho deles é de outro. Ele diz: 'Ora, pois, eu sempre soube'. Ela, surpresa: 'Mas como você sabia?'. O marido responde: 'Ué, Maria, quando nós estávamos na maternidade você me disse para ir trocar o menino, que estava todo cagado!'. Ele realmente trocou o bebê. Por outro”. Esta é a piada favorita de Wilma Nogueira Prats, e fica ainda mais engraçada para ela quando é Francisco Prats, seu marido, quem conta.

Casos desse tipo podem ser encontrados no livro “Wilma”, com a história de vida de... Wilma. Mas não adianta procurá-lo em livrarias, sebos e afins. A obra foi produzida por Regina Rapacci Magalhães, dona da Biografias & Profecias, editora que escreve livros sob encomenda, e não está a venda. Somente dois exemplares foram tirados – um está com Wilma; o outro, com Regina.

Com capa lilás, papel couché, 111 páginas, cheio de ilustrações e fotos, o livro mostra os melhores momentos da vida da senhora de 70 anos, descendente de dinamarqueses, que certa feita queimou o álbum de figurinhas dos filhos Douglas e Shalimar porque um tinha a figurinha especial e o outro não, fato que gerava uma guerra entre os dois.

“A produção do livro me fez saber histórias de que nunca tive conhecimento”, diz Douglas Prats, consultor de lideranças. De fala mansa e gestos discretos, Douglas conta que gostou da experiência. “Ter ouvido pela primeira vez a minha vó dizer que o nascimento da minha mãe foi o momento mais importante da vida dela foi impagável”. Dado numa reunião de família, com a presença do marido, dos filhos e dos netos, o presente não precisou de data especial para ser entregue. “Ele foi feito em reconhecimento por tudo que minha mãe fez à nossa família”.

À biografia de Wilma, seguiu-se a de José Antônio Preto, português ex-dono de padaria e ex-dono de posto de gasolina. Com o mesmo estilo do livro anterior, porém de capa preta, foi encomendado por Maurício Preto, filho de José, quando o pai completou 70 anos. “Tinha uma vontade imensa de homenageá-lo em vida, e o livro com a sua biografia foi perfeito”, diz Maurício, diretor de marketing de uma empresa de manutenção industrial.

Depois, vieram os livros sobre Mário César Araújo, ex-presidente de um grande grupo na área de telefonia – este um livro mais robusto, com 313 páginas, encomendado por sua filha Clarisse. “Eu tinha umas reportagens, umas fotos guardadas do meu pai, e queria organizar e fazer uma recordação para ele”, diz Clarisse; e Gilberto Garcia, gerente numa distribuidora de produtos para construção, encomendou um livro sobre os pais, Hélio e Mafalda, por ocasião da boda de ouro deles. “Gosto de registrar as coisas da família, achei que seria um presente inovador aos meus pais, e, ao mesmo tempo, estava resgatando a memória deles”. Todos os biografados só souberam da existência do livro no dia da entrega.

O livro de dona Wilma foi o primeiro de Regina. Tudo começou em 2006, depois de uma sequência de acontecimentos ruins. Em julho, a mãe, Maria de Lourdes Puccinelli Rapacci, morreu após sofrer de afecção dermatológica, doença cujo sintoma se dá com o surgimento de bolhas na pele que, quando explodem, deixam o lugar em carne viva. Em setembro, foi despedida do banco onde trabalhava como gestora do setor de televendas. Alegação do superior: era humana demais para trabalhar num banco. “Foi uma porrada atrás da outra. Fiquei com a alma à flor da pele”.

No mês seguinte, Regina iria se casar, mas estava perdida o suficiente para organizar a cerimônia. Foi aí que apareceu uma figura importante: a irmã mais velha, Ana Maria. “Ela acabou sendo minha mãe. Sem ela, o casamento não teria acontecido”. Em homenagem à irmã, ela escreveu um livro, baseado em diários que a mãe deixou sobre as duas.

Regina gostou, e resolveu que faria disso o seu trabalho. Começou o negócio sem nenhum tipo de estudo, ignorando a leitura de biografias e livros-reportagem – recentemente ela concluiu pós-graduação em Jornalismo Literário. “No começo eu não sabia direito que tipo de negócio era aquele, mas tive certeza de que queria fazer isso da vida”. Regina não queria ser ghost writer – tinha de ser algo que ela apurasse, sem abrir concessões, mas também evitando polêmicas e pontos desagradáveis. Por conta disso, todos os biografados ficaram satisfeitos com o resultado.

Douglas Prats foi o primeiro a receber uma proposta formal. A princípio, recusou. “Achei a proposta barata demais e mandei a Regina refazer”, lembra. Regina acatou a recomendação, mas o salto não foi tão grande: dos 3 mil reais iniciais, o livro de Wilma foi fechado por 4 mil. (Hoje, um livro custa entre 15 mil e 40 mil reais).

Uma equipe de freelancers faz o design e a revisão. A concepção, o texto, a parte de pesquisa histórica e a escolha de fotos é de Regina, junto com o cliente. O trabalho não a incomoda. Pelo contrário. Bonita, sempre arrumada e sorridente, ela se empolga ao falar do que faz.

Regina diz que não se trata de terapia biográfica nem de um “tratado de canonização”. Mas as obras da Biografias & Profecias passam longe do rigor de objetividade encontrado em biografias convencionais. “A ideia é que o livro gere movimento”, diz. Por “gerar movimento”, entende-se: quem ler qualquer um dos livros deve tirar uma lição. “E, para mim, o que importa é a riqueza dos encontros que promovo entre as pessoas e as histórias que ouço e registro. O livro é só uma consequência”, diz.

O próprio esquema de entrevistas de Regina é diferenciado. Ao invés do tradicional pergunta-e-resposta, ela usa cartões decorados com desenhos, com os temas que serão abordados. O entrevistado escolhe o assunto de que quer falar naquela hora, e a conversa se desenvolve a partir daí. “Esse é um jeito de me aproximar da pessoa, de quebrar o gelo”. Só não usou esse método no último livro que fez, sobre um figurão do ramo têxtil, o primeiro com participação direta do biografado. “Se eu fosse conversar com ele com cartõezinhos, não iria rolar”.

Até agora, Regina só escreveu sobre anônimos, e apenas por falta de oportunidade. Um famoso em especial lhe desperta curiosidade. “Adoraria saber o que tem por trás do topete do Roberto Justus. Ele é muito certinho...”, diz. Regina escreveria um livro sobre ele, se pudesse colocar tudo que encontrasse. Justus já tem um livro, “Construindo uma vida”, lançado em 2006. E, nele, está com o topete mais armado do que nunca.


Ela conta histórias por encomenda... Foto: arquivo pessoal

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O Domingo Premiado

Mais uma colaboração minha na distinta revista de nome nordestino.  ;-)

Um prêmio da Quina divide a vida do porteiro Francisco Dantas Filho em duas partes. Ele trabalha num prédio residencial de catorze andares, com apartamentos de três quartos, no Centro de São Paulo. Veste com apuro a camisa branca e a calça azul-marinho do uniforme. Ganha "menos de três salários mínimos por mês". Não tem carro. E seu passatempo é ver futebol pela tevê, com a mulher e o filho de 12 anos.

Mas, no dia 18 de novembro de 2007, um domingo para ninguém botar defeito, Dantas foi outro homem.

Na véspera, ele havia arriscado 5 reais no concurso 1 828 da Quina. Ao acaso, marcou no cartão sete dezenas. Com esse modesto investimento, descobriu, no dia seguinte, que acabara de ganhar R$ 216.181,94. O resultado saiu no jornal O Estado de S.Paulo. Lá estavam, cravados, cinco de seus palpites: 02, 29, 38, 58 e 63. "Quase morro do coração naquela hora", diz o porteiro, que fala sempre em voz baixa e não espalha exclamações nem quando recorda o mau desfecho da história.

Naquela manhã, ele acordou a mulher na mesma hora, para dar a notícia. Em seguida, ligou para Traíras, no interior do Rio Grande do Norte, de onde saiu há dezoito anos para procurar emprego em São Paulo. Chamou a mãe ao telefone, prometendo que mandaria em breve um dinheirinho para ela comprar a casa nova. E, acertadas as dívidas da família, se presentearia com um automóvel zero quilômetro. Tratou de apurar numa concessionária Fiat o preço do Palio Adventure, a seu ver "o carro mais bonito que existe".

Depois de planejar o futuro, Dantas decidiu celebrar com os amigos no lava-rápido da rua Albuquerque Lins. Como ainda não tivesse o dinheiro em mãos, a festa foi austera - e a despesa, nula. Àquela altura não podia saber, mas o rega-bofe franciscano era, ele sim, a sorte grande. Porque, na segunda-feira, assim que teve uma hora vaga para conferir o resultado numa casa lotérica, Dantas descobriu que as dezenas sorteadas eram 05, 16, 30, 47 e 73. Que Quina, que nada. Ele não fizera um mísero ponto.

"Foi uma decepção sem tamanho", ele comenta, de cabeça baixa. Pegou novamente o jornal, apostando as últimas fichas na hipótese de que a casa lotérica estivesse enganada. Mas, naquele dia, O Estado de S.Paulo trazia na página 2 do Caderno Cidades os números certos, e não os que ele lera na véspera.

A Quina saíra para dois apostadores no estado do Rio de Janeiro - um de Duque de Caxias, outro de São Pedro da Aldeia. Não passara nem perto de sua esquina em São Paulo. Dantas penou ainda mais ao descobrir que tinha cravado, sim, suas dezenas premiadas - mas no concurso errado, o 1 827, da semana anterior. O jornal se enganara, atribuindo à edição do dia os números de uma semana atrás.

Dantas ficou sem o Palio Adventure e teve que engolir as piadas dos amigos. Mas duro mesmo, afirma, foi telefonar para a mãe, cancelando a mudança de imóvel. Desgostos mais do que suficientes para um advogado lhe garantir o direito a uma indenização por danos morais. E ele resolveu processar O Estado de S.Paulo pelo engano.

O problema é que o jornal não é o responsável legal pela divulgação da loteria. Quem faz isso é a Caixa - e o Estadão apenas publica. E, em primeira instância, a ação foi sumariamente barrada pela juíza Fernanda Gomes Camacho, que recusou o processo por "falta de interesse em agir". O argumento, no mais puro juridiquês, quer dizer que, sendo o erro do jornal involuntário, não haveria como cobrar-lhe os tais danos morais.

Isso está escrito agora com todas as letras na página do Estadão que publica o resultado dos sorteios: "O quadro abaixo não deve ser usado para a conferência oficial das loterias. Dependendo do horário dos sorteios e do fechamento, alguns resultados podem estar defasados." Na manhã em que Dantas se sentiu dono de um Palio Adventure, o texto era outro. Informava simplesmente que os números estavam lá "apenas para consulta".

"Ainda estamos tentando. Vamos até a última instância", garante o advogado Nelson Mandelbaum, que comprou a mágoa do porteiro. Ele cita antecedentes que dão razão a seu cliente. Mas a causa está no Tribunal Regional Federal de São Paulo. E, até onde a vista alcança, ainda não deu sinais de se mover em qualquer direção.

Quem continua se mexendo é Dantas. Ele aposta regularmente nas loterias. Divide-se entre a Lotofácil, a Lotomania e a Quina. Lembra que saiu para São Paulo o maior prêmio da história da Quina e um apostador embolsou sozinho mais de 3 milhões de reais no concurso 1 945. Por via das dúvidas, às vezes marca os mesmos números que quase o enriqueceram em 2007. Não é nada, não é nada, eles já cruzaram com Dantas duas vezes - na semana em que jogou e naquela em que devia ter jogado.

 
O volante da quase premiação... Foto: lotomaniaco.com.br


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Desabafo De Uma Mãe

Um caso complicado de Izabel Kropsch, mãe da linda Catarina, cadeirante que tem direito de estudar como qualquer outra criança. Absurdo total!


Caros amigos e guerreiros da inclusão:

É realmente revoltante ...
Venho aqui apenas para mais uma vez desabafar sobre o preconceito e descaso das escolas particulares no Rio de Janeiro quanto as pessoas com deficiencia.

Hoje fui mais um vez surpreendida por uma DUPLA rejeição.
 
Tanto o Sion como o Ceat, escolas acessíveis tecnicamente, informaram que não tem estrutura para receber minha filha cadeirante em suas instituições.

É lamentável e muito - muito triste ...
Em regra sou patriota com bandeirinha ao vento - mas hoje estou com vergonha do meu país.

Abraços,

Izabel Kropsch
Mãe de Catarina - 5 anos - AME Tipo 1
AAME - Amigos da Atrofia Muscular Espinhal
www.atrofiaespinhal.org




Izabel e a linda Catarina. Foto: Yrê Sales

domingo, 11 de dezembro de 2011

Os Nossos Pangarés

A exemplo do primeiro texto deste blog, a crônica foi anteriormente publicada no blog Magnando, do meu querido amigo Magno Nunes.


Há algum tempo, uma expressão tomou conta dos programas esportivos brasileiros: "cavalo paraguaio". Essa espécie, pouco valorizada no mercado, inicialmente dá a impressão de ser um equino impecável que encanta platéias tanto nas apresentações de pista quanto no turfe. Mas, passa o tempo, o sangue de Assunpcion grita, o cavalo cansa no meio da corrida e refuga na hora do salto, enganando todo mundo, em especial o otário que o comprou e os babacas que apostaram nele.

A tradução para o mundo futebolístico é simples. "Cavalo paraguaio" é o time que começa um campeonato ganhando todos os jogos, ataque arrasador, defesa sólida, sucesso de público e crítica. E aí, passadas algumas rodadas, os jogadores começam a ir mal das pernas, a receita desanda, e o time cai pelas tabelas. Não demora, e aparecem alguns desses entendidos, quase sempre vindos das famosas mesas redondas, lascando: "olha aí, é cavalo paraguaio!".

Essa expressão aparentemente boba mostra como alguns brasileiros encaram nossa condição de medianos - falo aqui, claro, em representatividade mundial. Não somos os donos da fala, mas também há bastante tempo deixamos de ser um país ignorado. Estamos nos equilibrando na corda bamba entre os desenvolvidos (que amamos) e os em desenvolvimento (que menosprezamos). Reconhecemos e queremos ser reconhecidos apenas por Estados Unidos e Europa (e Europa aqui significa Alemanha, Itália, Reino Unido, França, Espanha e Portugal - ou alguém morre de preocupação com o que pensam albaneses e estonianos?!). Aos outros, bananas.

Seguida de um sorriso de deboche, a expressão faz menção as falsificações vindas dos nossos vizinhos. Não é mentira, e os entendidos sabem. O que eles provavelmente não sabem é que essa questão toca numa ferida paraguaia ainda longe de cicatrização, que envolve um passado de ditadura conchavada com gangues que não pensavam 2 vezes antes de "suicidar" quem passasse pelo caminho. Os produtos piratas trazem, além da origem criminosa, histórias de famílias destruídas por uma violência institucionalizada (aos que tiverem curiosidade, o repórter Domingos Meirelles já escreveu matérias fantásticas sobre o assunto).

Ano passado, o ator Robin Williams fez, no programa de David Letterman, um resumo das "artimanhas" brasileiras para ganhar o direito de organizar os Jogos Olímpicos de 2016: strippers e cocaína. Naturalmente, nós não gostamos. E os nossos pangarés - esses sim, de péssima qualidade - deveriam se tocar antes de soltar o tal "cavalo paraguaio". Esse "cavalo" é a nossa "cocaína" e a nossa "stripper". São palavras que tiram sarro. Palavras de gente que refuga na hora de usar o cérebro.
Foto: site Bahia à Tarde

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Davi E Golias



O que faz o cônsul de San Marino no Brasil?

Meu primeiro trabalho profissional em Jornalismo -  matéria publicada em Esquina da revista piauí de novembro de 2008, editada, com todo carinho e atenção, pelo mestre Marcos Sá Correa.


O território de San Marino é seis vezes menor que o de Porciúncula, na divisa do Rio de Janeiro com Minas Gerais. Sua população equivale à de Pau dos Ferros, um município no interior do Rio Grande do Norte. Logo, o cônsul desse país não tem muito o que fazer, certo?

Errado. Há mais de duas décadas que Giuseppe Lantermo di Torre di Montelupo é o cônsul-geral de San Marino no Brasil. Aos 70 anos, sem um fio de cabelo fora do lugar, e extremamente alinhado no terno cinza com listras brancas, ele ainda acumula a presidência da Sociedade Consular de São Paulo e a diretoria da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria.

A sereníssima república que Montelupo representa cabe em 61 quilômetros quadrados. Napoleão tentou aumentá-la, quando invadiu a Itália na virada do século XVIII, mas a população recusou a oferta, alegando sabiamente que era assim, pequena e economicamente inviável, que a região resistira à cobiça externa desde a queda do Império Romano. Independente, San Marino manteve a alcunha de república mais antiga do mundo. E, somados seus quase 30 mil habitantes, uma pauta comercial com o Brasil que o próprio Montelupo sabe de cor.

O país vive do castelo que atrai turistas à distância, como uma miragem medieval, e do comércio de selos raros para filatelistas. Recebe 3,5 milhões de visitantes por ano. Suas ruas, poucas e estreitas, são entupidas de barracas vendendo suvenires. Até 2006, era disputado ali o Grande Prêmio de San Marino de Fórmula 1, que a rigor se realizava numa pista em solo italiano, sob pena de todos os carros entalarem para sempre nas vielas de pedra. Sobrou apenas o Grande Prêmio de Motociclismo, em San Marino, que também é corrido na Itália.

Com essas características, San Marino, em si, é o posto que menos trabalho dá a Montelupo. "O que mais recebo são pedidos de estudantes em busca de estágios na Europa. Mas não tem como, nossa estrutura é muito pequena", ele conta. O serviço constitui no envio de relatórios mensais ao governo de lá, formado por dois Capitães Regentes e um Parlamento com 68 cadeiras. E "só em casos específicos, como uma crise", Montelupo manda notícias extras. Segundo ele, os 23 cidadãos san-marinenses que residem no Brasil "são bonzinhos". O único problema contabilizado até hoje ocorreu quando um político, em visita não oficial, morreu acidentalmente no Nordeste.

A burocracia consular fica por conta da chancelaria, onde o professor doutor Nelson Lombardi concede vistos e atende a consultas do público. Há também um adido cultural, o Sr. G. Quagliotti Silvestri Faà. E a ENAS, sigla de Ente Nazionale di Assistenza Sociale, uma organização patronal que, na prática, presta assistência aos italianos e san-marinenses que queiram informações sobre o Brasil, e vice-versa. Ultimamente o cônsul-geral ganhou ainda a companhia bissexta de Mario Mariani, que, como embaixador de San Marino em Portugal e no Brasil, passa por aqui no máximo duas vezes por ano.

O consulado fica na avenida XV de Novembro, no centro de São Paulo, mas Montelupo faz da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria, na avenida Paulista, a sua sede. É ali que gasta a maior parte de seu expediente, como diretor de comércio para a região do Piemonte, importante pólo industrial do norte da Itália. De sua pequena sala, atulhada de folhetos e equipada com dois computadores antigos, tem acesso a todas as informações do consulado. E é de lá que também comanda a Sociedade, criada há 85 anos, depois que a cidade de São Paulo se tornou a segunda do mundo em número de consulados (tem 94, contra os 113 de Nova York). Montelupo entra em ação em casos que exijam contato direto com o primeiríssimo time de autoridades municipais, estaduais ou até federais. "Mas, claro, não faço isso sozinho. Se preciso, peço ajuda dos meus colegas", explica.

Seus três cargos, embora de altíssima confiança, não lhe rendem um único centavo. "Vivo com o auxílio de amigos, com economias que fiz ao longo da vida e com trabalhos esporádicos em consultoria jurídica que faço na Itália", ele esclarece. Não tem, sequer, uma secretária. A faz-tudo Maria Manduca o atende de jeans e tênis, cuida das ligações e trata de evitar que ele esqueça o celular no armário. "Ele é superatencioso. Procura atender todo mundo da melhor forma possível, mesmo com esse monte de coisas que tem para fazer", ela atesta.

Embora more no Brasil desde 1986, Montelupo é piemontês da melhor cepa. Dirigia uma indústria têxtil em Turim, sob a administração de sua família há mais de um século, até que San Marino reatou as relações diplomáticas com o Brasil, rompidas desde a II Guerra. Convidado para assumir a vaga de cônsul honorário, ele trocou o empresariado pela "vocação para a política internacional". Em 2002, foi finalmente efetivado como cônsul-geral. Gosta de tudo em seu trabalho. "Uma das coisas que mais me encantam é o tamanho do Brasil", afirma. Vai freqüentemente à Amazônia. E, nas horas vagas, escreve livros. Tem três obras publicadas em italiano. Uma sobre heráldica. Outra sobre sua família materna, "a mais antiga da Provence". E uma terceira sobre fragmentos de 2 mil anos de história piemontesa. O próximo livro, já a caminho, será sobre a dinastia de Savóia. Traduzi-los para o português? Ele nem pensou nisso, por falta de tempo.

Sua agenda anda tão carregada que, em São Paulo, ele abandonou o golfe. Faz caminhadas de uma hora, "só para não deixar o corpo parado". E não deixa dúvidas de que está em forma, percorrendo os corredores da Câmara de Comércio com velocidade de office-boy, na hora de entregar um documento urgente. Mas a diplomacia não eclipsou inteiramente seu lado de empreendedor. O cônsul acaba de trazer para o Brasil o Bianco dei Colli di Montelupo, um vinho branco produzido em San Marino que pode ser provado no Tomato L'Antico Ambrosiano, o único restaurante paulistano especializado na cozinha san-marinense. Além desses pequenos trunfos gastronômicos, o título consular só lhe dá "um passaporte diferente e direito a um carro com placa azul". Ah, sim! "E talvez certo prestígio do cargo." Mas essa afirmação ele faz sem nenhuma ênfase.
Mapa de San Marino. Fonte: Wikipedia

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Loucura Morfina


Um dia desses eu estava andando na Rua 25 de Março, no centro velho de São Paulo, perto do terminal Parque Dom Pedro II. Um lugar largado, parece um grande quarto de adolescente – substitua as meias sujas por lixo de toda a espécie, constituído basicamente pelo resto do Mercado Municipal, também vizinho da região. Era tarde da noite e não tinha quase ninguém acordado nas calçadas...

De repente, aparece uma mulher de cabelos curtos, metade pretos, metade loiros, com o rosto cheio de marcas da idade. Destacavam-se os olhos azuis que pareciam pintados com caneta marca-texto. Camisa preta com apenas um botão fechado – o suficiente para não mostrar os peitos pequenos – e calça também preta, sem bolsos e sem passar na água há um bom tempo. Carregava uma sacola grande com um cobertor grosso e bem pesado.

Ela desembesta a falar. Diz que foi expulsa de casa pelas irmãs mais velhas, “duas malvadas, ruins de alma”. Duas meias-irmãs na verdade, filhas do primeiro casamento de sua mãe. As duas têm a vida torta. A mais velha foi criada por uma tia-avó. Quando esta morreu, deixou uma boa casa no centro de Mogi das Cruzes, cidade da grande São Paulo. A herança se transformou num barraco na favela e em drogas, muitas drogas.

A segunda casou-se com um policial que ficou louco depois de ser mordido por um cachorro com raiva – comeu utensílios domésticos, foi afastado da corporação e acabou se enforcando no meio da sala. Sem dinheiro, sem emprego, sem marido, a viúva caiu no mundo do tráfico. Chegou a ser presa e, segundo as últimas informações, está por aí.

A mãe, ela não vê há uns 5 anos. Se ainda estiver viva, está bem velhinha. Foi enfermeira por muito tempo no Hospital das Clínicas até conseguir uma aposentadoria que, se não é uma fortuna, não a deixava em apuros. A mulher nunca soube da mãe desde que saiu de casa – diz que tem vergonha e receio de procurá-la depois de tanto tempo.

O resultado de tudo isso é que, de Mogi das Cruzes, ela foi parar no centro de São Paulo, altas horas da noite, sem lugar para dormir e sem um tostão no bolso. Se fosse para se vangloriar de alguma coisa, ela poderia falar com certeza: era o ser humano mais limpo de toda a redondeza. E articulava bem as palavras - as frases faziam perfeito sentido em todas as sete vezes que ela repetiu os relatos acima, sempre na mesma ordem.

Acredito que, se ela estivesse em outro lugar, teria consciência de que basta falar uma vez só. Mas ali não. Quem mora na rua, pelo menos naquela, não tem como ser são da cabeça. Se ficar são, no meio daquela sujeira toda, não vive. A loucura lá é como uma proteção. É como a mãe que tira forças sabe-se lá de onde para salvar o filho. E é como a morfina, que não cura a causa mas alivia a dor. A loucura ali é o anjo da guarda. O que seria daquelas pessoas, em plena faculdade mental, se vissem todos aqueles carros carregados de frutas do Mercadão, sem poder levar uma maçã que seja, a não ser quando aparece aquele trocado salvador?

Ali, e em tantos outros lugares, a loucura não é uma patologia, é a sopa quente das noites frias.

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